Robert Capa: de perto e de longe

Mais que um fotojornalista, Robert Capa (1913-1954) foi um jogador. Sim, o carteado era seu hobby preferido entre um clique e outro na Contax. Mas não era apenas dinheiro que Capa costumava colocar sobre a mesa.

“O correspondente de guerra tem sua aposta (sua vida) nas próprias mãos e pode colocá-la neste ou naquele cavalo, ou pode colocá-la de volta no bolso no último minuto”. Foi assim que raciocinou um dos maiores fotógrafos do século XX, antes de se aventurar com a primeira leva do exército dos Estados Unidos que desembarcou na Normandia dominada por Adolf Hitler. No Dia D, Robert Capa levou às últimas consequências a regra número um, cunhada por ele próprio, para se obter bons resultados no ofício de fotografar: “Se suas fotos não estão boas o suficiente, é porque você ainda não está perto o suficiente.”

Capa, durante a Segunda Guerra Mundial: "Se eu tinha que participar do funeral, jurei, teria que participar da procissão"

 

Quando as forças aliadas desembarcaram pela primeira vez na França durante a Segunda Guerra Mundial, Capa não poderia estar mais próximo dos fatos. Soldados mortos pelos tiros certeiros de alemães entrincheirados se espalhavam por todos os lados. Não é que Capa estivesse perto o bastante: com sua farda verde oliva, capacete e câmera, o fotógrafo era partícipe do que estava registrando.

Em Ligeiramente fora de foco (2010), livro autobiográfico lançado pela editora Cosac Naify, Capa conta o antes, o durante e o depois da batalha mais importante de que já se teve notícia no mundo ocidental. Se o Dia D representou para os aliados o começo da derrota militar do nazismo, para Capa as imagens de soldados desembarcando, lutando e morrendo nas praias normandas em junho de 1944 serviram para alçá-lo ao panteão definitivo das lendas do jornalismo internacional.

Porém, como toda lenda, Capa não escapa à polêmica. Em 1936, alguns anos antes de embarcar para a Europa conflagrada, o fotógrafo esteve na Espanha cobrindo a guerra civil entre republicanos e franquistas pelo controle do país. E lá teve sua integridade profissional colocada em xeque pela primeira vez, pois registrou o exato momento em que um miliciano legalista era fatalmente alvejado. Acusaram-no de fabricar a imagem, de tão impressionante, porém, pouco tempo depois, tanto a família do combatente, quanto a historiografia espanhola, acabariam por confirmar a veracidade da foto e a reputação de seu autor.

A edição original de Ligeiramente fora de foco, publicada em 1947, trazia uma orelha bastante curiosa, na qual se podia ler uma espécie de confissão do autor: “Como é evidentemente muito difícil escrever a verdade, no interesse dela eu me permiti às vezes ir um pouco além ou ficar um pouco aquém. Todos os eventos e pessoas neste livro são casuais e têm alguma coisa a ver com a verdade.”

Para o apreciador de suas fotos, vale a pena saber que ele não escreveu Ligeiramente fora de foco para transformá-lo em documento histórico – sua intenção era que o livro servisse de base para um roteiro de cinema. Cabe ressaltar ainda que o fotógrafo, antes de sair por aí cobrindo guerras, queria mesmo era ser escritor.

A leitura deste relato histórico, em que Capa fala de sua vida privada e profissional, confirma que o talento do húngaro (nascido Endre Friedmann) não fica devendo em nenhum dos ofícios. Muito pelo contrário: as fotos são uma bela ilustração dos causos de guerra narrados pelo autor, e o texto ágil e leve contextualiza e dá ainda mais força às dezenas de imagens que retratam o conflito mais cruento da história contemporânea.

O Dia D, pelo perigo que representou à vida de Capa, é o ponto mais excitante do livro – mas não é o único. Ao longo de Ligeiramente fora de foco, o fotógrafo fala de suas peripécias jornalísticas nos frontes da Argélia, Sicília, Itália, França, Bélgica e Alemanha. Narra o prazer que sentiu ao acompanhar as tropas que reconquistaram Paris (sem esquecer dos beijinhos que ganhou das francesas em frenesi) e conta como o escritor Ernest Hemingway, seu amigo desde a Guerra Civil Espanhola, libertou o Ritz parisiense com seu pequeno exército – e pilhou a requintada dispensa que os oficiais alemães deixaram para trás.

Como não poderia deixar de ser, Ligeiramente fora de foco está pontilhado de reflexões sobre o jornalismo de guerra. Uma delas explica quando e porque Capa decidiu trabalhar no fronte, lado a lado com os soldados.

Reflexão e decisões

Quando ainda estava na Inglaterra, o fotógrafo foi conduzido a uma base aérea para registrar o dia-a-dia dos pilotos norte-americanos ali estacionados. Após uma missão em que os recrutas voaram para bombardear posições alemãs, Capa se postou na pista de pouso para recebê-los e fotografar o que visse. E deu com cadetes destroçados e agonizantes. Ao ver a morte de seus companheiros de guerra focalizada pelas lentes de um estranho oportunista, um dos sobreviventes lhe gritou:

“Eram essas fotos que você estava esperando, fotógrafo?” Capa fechou a câmera e foi embora sem se despedir – mas não sem refletir sobre o episódio: “No trem para Londres, com aqueles bem-sucedidos rolos de filme, senti ódio de mim mesmo e de minha profissão. Esse tipo de fotografia era para agentes funerários, e eu não gostava de ser um deles. Se eu tinha que participar do funeral, jurei, teria que participar da procissão.”

Outra passagem do livro revela porque Capa não retratou os campos de concentração nazistas, apesar de ter tido repetidas oportunidades de fazê-lo. “Os campos de concentração estavam cheios de fotógrafos e cada nova foto de horror servia apenas para diminuir o efeito total. Hoje, durante um breve instante, todo mundo verá o que aconteceu com aqueles pobres coitados; amanhã, poucos se importarão com o que acontecerá a eles no futuro.”

Em busca do furo, Capa foi capaz de saltar de paraquedas em pleno território inimigo, sem qualquer garantia de vida, durante operações tão perigosas que inundava de medo o espírito do soldado mais valente. Tanto que, certa vez, um deles lhe perguntou: “Você está aqui porque quer?”

Contudo, o fotógrafo também teve o sangue frio de se permitir perder a entrada triunfal dos aliados em Berlim para tentar reconquistar um rabo de saia em Londres. Pinky, a musa que acompanha Robert Capa durante todo o livro, estava prestes a se casar com outro – e Capa não pensou duas vezes antes de abandonar o fronte para mergulhar em outro tipo de batalha.

São os peculiares limites profissionais de um fotógrafo que seguia suas próprias regras de sobrevivência física (e emocional) durante a guerra.

(Tadeu Breda)  Fonte: http://operamundi.uol.com.br/dicas_ver.php

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Fotografia. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s