Exposição Jack Endewelt

O Instituto de Artes Visuais da UniverCidade apresenta a exposição sobre o ilustrador Jack Endewelt
Galeria De Ipanema – Av. Epitácio Pessoa, nº1664, 1º andar
 Aberta de 9h as 22h
A partir de 9 de agosto de 2012

À primeira vista, parece que as pinturas de Jack Endewelt são de diversos autores. Mas, depois de uma verificação mais cuidadosa, percebe-se que elas só poderiam ter sido feitas por única pessoa. A relação que existe entre suas obras é menos acidental do que parece, pois elas podem ser consideradas de uma maneira tangencial ou em série. Há um delicado fio condutor unindo-as, nem tanto pela abordagem plástica, mas sim pela escolha de temas aleatórios, que, na verdade, servem como testemunhas da vida de Jack. Essencialmente, ele pintou  sua autobiografia: de comestíveis e aviões a toda experiência cinematográfica, que também inclui alimentação, as representações de natureza morta encontradas na vida e a simples documentação do cotidiano.

Jack começou a pintar chocolates quando parou de fumar. Inicialmente inspirou-se por suas formas, tão fascinantes quanto os objetos. Em suas superfícies, Jack via paisagens; rios, vales, montes, montes e montanhas apareciam quando os chocolates eram iluminados. Todos eram frutos da vida. Os projetores aqueciam os chocolates, que exalavam aromas deliciosos e eram comidos, ao derreterem. Em conjunto, a pintura, o aroma e a degustação criavam uma experiência próxima à gratificação sexual.

O quadro das balas jujuba, pintado durante os anos do governo Reagan, não teve qualquer motivação política, mas foi inspirado pela possibilidade de seu autor ver as cores, pela ideia de poder ver através de algo, por sua vez também pouco visível. Jack estava fascinado pela luz refletida, oque aparecia apenas raramente.

O mesmo princípio motivou a pintura de macarrão nas jarras de vidro. A ideia de poder ver tudo, sem nada escondido; apenas a luz refletida que, ao ser vista uma vez, não pode mais ser ignorada.

A pintura de tomates não foi premeditada. Quando Barbara, esposa de Jack, trouxe os tomates para casa e os pôs na bancada da cozinha, ele inspirou-se com suas cores vibrantes e superfícies lisas que, acabaram enrugadas antes que conseguisse terminar de pintá-los.

As pinturas de Jack são o resultado de um envolvimento imediato entre tinta e tela, ou tinta e papel. Esteja trabalhando com óleo, guache ou aquarela, não há qualquer esboço ou croqui inicial. Ele percebe sua arte como ato de quebrar regras. Suas pinturas começam pelo meio e depois se resolvem deixando espaço para acidentes e espontaneidade. Da mesma forma, e quase contraditoriamente, Jack pode trabalhar em uma pintura de maneira tão extensa e demorada que todos os acidentes iniciais são eliminados e a obra se torna algo diferente do inicio. Ao ser executada dessa forma, a pintura acaba por ter algumas seções produzidas com minúcia, enquanto outras áreas são mais soltas e inacabadas. Isso possibilita ao público maior compreensão do processo artístico de Jack.

Jack foi influenciado pelo trabalho de John Singer Sargent; deixar inacabada parte de um autorretrato o excitava e inspirava, assim como a obra em preto, branco e cinza feita para a Grande Odalisca por Jean-Auguste Dominique Ingress. Os desenhos a lápis de Ingress, com cabeças e mão executadas com minúcia e pouca informação visual no meio, tiveram efeito semelhante.

A experiência de Jack com a pintura de um barco em uma paisagem deixou uma parte da obra menos trabalhada que o resto, pois o dono do barco chegou e saiu. Concluída, a obra pouco se assemelha a um barco e as áreas mais bem tratadas combinam-se com outras soltas e inacabadas, sugerindo uma qualidade espontânea, não premeditada. Ao pintar com guache e aquarela, Jack pode facilmente editar o trabalho enquanto permite ao público acessar o processo.

Outro fio que percorre o corpo da obra de Jack é seu envolvimento com a superfície, textura e os efeitos de luz sobre o objeto que ele esteja tentando capturar.

Suas pinturas são feitas com modelos e depois reforçadas por fotografias. O tempo que Jack gasta em cada pintura torna impossível para ele trabalhar apenas com modelos. Ele usa luz artificial quando trabalha com objetos e figuras em estúdio, pois o controle o direcionamento da fonte de luz como o objetivo de enfatizar a forma é crucial às pinturas de Jack. Outro foco importante de suas pinturas é a utilização da sombra natural combinada com outra produzida por ele, cujo objetivo é criar ilusão de tridimensional em superfície de duas dimensões.

Esse nível conceitual, Jack se sente mais ligado aos artistas pop dos anos 60, em particular Andy Warhol. Sobretudo com o fato de Warhol ter transformado objetos mundanos em ícones. Isso porque Jack tem a mesma sensibilidade de usar o ponto de vista que permite ao artista comentar sobre a sociedade a partir de um determinado tema.

A série de três pinturas retratando armas, atores de filmes e doces é mais surrealista do que o literal. Nela, Jack leva o público de volta a sua infância. Desde os quatro anos de idade, sentava-se com a mãe para assistir a filmes sobre os mais variados temas. A infância de Jack não foi nada agradável. Ele transformou o que poderia ter sido solidão em privacidade, usando o tempo que passava sozinho para ouvir rádio, ler e criar seu próprio mundo com lápis e papel. Essas pinturas refletem o modo como ele processou a informação que sua geração coletava nas escuras salas de cinema. São equações de heróis, vilões, vítimas de tiroteio e tudo mais adocicado pelo gosto das balas. Os objetos, que aparentam não ter qualquer relação entre si, são, de fato, narrativos.

Ao terminar o segundo grau, Jack passou o verão trabalhando com o seu tio, que era encanador. Imediatamente, soube que essa não era seria sua profissão, mas os objetos utilizados no ofício tornaram-se presentes em suas pinturas. A forma dos canos ou das torneiras é estética, são objetos sensuais. Há semelhanças visuais entre torneiras, armas e aviões. São todos tubulares e tanto fálicos como vaginais. Também são objetos mecânicos e preciosos. Oriundos de um mundo de imprecisão. Desde a morte de seu pai, na infância, que Jack tinha a necessidade de determinar as coisas ao seu redor, controlar o ambiente, ordenar seu universo do mesmo modo que fazia quando criança, ao inventar seu próprio sistema solar. Isso transfere-se para suas pinturas. Os desenhos mais recentes de Jack são mapas tipográficos. Eles são avenidas para o abstrato, assemelham-se á superfície da terra vista do ar. Jack suspeita que seus desenhos começaram quando ele iniciou suas viagens. No entanto, é mais provável que tenha sido fruto de sua inspiração e não necessidade.

O ato de colocar tinta em uma tela é causado por reverberação. Reflete tudo que já foi assimilado antes do exato momento em que  ocorre a pintura; mas também inclui o próprio ato em si. Quando Jack está pintando, entrega-se totalmente, nada mais existe a sua volta. O ato de pintar é um ato de excessiva indulgência. É difícil para ele completar mais do que cinco obras de uma série, sucessivamente. Fica saciado e começa algo totalmente diferente até que a fome pelo tópico anterior cresça e volte, renovado. Entretanto, o sentimento que Jack, ao pintar, tenta capturar em qualquer objeto/tema é tão interno e íntegro que ele precisa apenas registrá-lo.

As pinturas de Jack Endewelt são um pouco sensual, um pouco oral, um pouco diálogo interno e no todo uma tentativa de tornar visível e narrativos os objetos mundanos de seus universos interno e externo. Jack está, na verdade, homenageando o tema escolhido, sejam nuvens, armas, chocolates, encanamentos ou aviões, pois quando olha para essas coisas, elas são belas e em suas superfícies há um mundo. A pintura de objetos diz respeito a sua relação e associação pessoal com eles e ao espírito dos objetos cuja beleza Jack evoca.

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