Leo Visconti

Leo Visconti_

 

Pioneiro da formação acadêmica em design no Brasil faz uma retrospectiva da brilhante carreira.

Leonardo Visconti fala do início do curso de formação superior em design no Brasil como um desejo comum que cresceu entre pessoas que nem se quer se conheciam.

“A procura da formação de design no Brasil, principalmente o carioca, se deu através de um grupo que nem se conhecia mas já procurava essa formação ou mesmo especialização. Por isso as primeiras turmas eram formadas principalmente por quem já havia passado por algum outro curso superior como engenharia, arquitetura ou mesmo artes.”

Visconti, antes da escolha pelo curso de design, iniciou-se em arquitetura na UFRJ, ministrada ainda na Praia Vermelha onde funciona atualmente a Faculdade de Comunicação da UFRJ. Seu interesse era de após a faculdade fazer uma especialização fora do país, mas até que um dia conheceu alguém que mudou o seu rumo, juntamente com outros fatores.

“Durante o curso de arquitetura tive a sorte de estagiar no escritório de Roberto Burle Marx por um período até longo, três anos. Lá no escritório, por ser um lugar muito freqüentado por arquitetos e artistas, vim a conhecer Aloísio Magalhães que estava estruturando com um grupo de pessoas o que viria a ser a ESDI, ( Escola Superior de Desenho Industrial ). Com a ida do curso de arquitetura para a Ilha do Fundão, eu acabei abandonando o curso, prestando outro vestibular para a Escola de Belas Artes que estava instalada no centro, hoje Museu Nacional de Belas Artes. Com esse contato com o Aloísio, soube que a estruturação do curso havia ficado pronta então em 1963 prestei vestibular novamente, agora para Desenho Industrial, o que realmente eu queria fazer. Assim ingressei na primeira turma.”

Falando sobre seus primeiros contatos com o design lembra da dificuldade de se conseguir materiais de leitura sobre o tema. “Por volta dos meus 16, 17 anos entrei numa livraria e vi um exemplar da revista “Style Industrie” Italiana, que tratava tanto de design gráfico, de produto quanto de arquitetura. Ali vi a real importância do design. Esse foi meu primeiro contato real e saquei que era exatamente aquilo que eu queria pra fazer.”

Ao falar sobre seus primeiros trabalhos como profissional reforça a necessidade de bons projetos acadêmicos para a elaboração de seu portfólio. “Meus primeiros passos como profissional foram ainda na faculdade, por volta do segundo ano, já havia iniciado um escritório, com o professor de fotografia Luiz Otávio Temudo que encomendou a mim e ao Roberto Verschleisser, (com que Leo viria a formar mais tarde a Verschleisser/ Visconti) uma marca para um escritório de fotografia.

Ao acompanhar nosso processo de raciocínio ele se interessou pela nossa forma de trabalho e nos convidou para formarmos o escritório, unindo fotografia e design gráfico.” Nasceu então a Foco Programação Visual.

Assim começamos eu e Verschleisser a projetar, enquanto o Temudo fazia contatos com os clientes. Lembro da importância de nossos projetos acadêmicos que por tão bem feitos e cuidados serviam como portfólio profissional onde mostrávamos aos empresários o que era design e fazíamos este assumir uma responsabilidade de projeto conosco. Foi uma verdadeira catequese. Levávamos nosso áudio-visual, composto de slides e garganta, e lá íamos os dois para a batalha na caça de clientes.

Com a dissolução da Foco, onde Temudo dedicou-se a área de Turismo e os dois jovens designers com a experiência e confiança conquistadas resolveram montar o escritório que viria a ser um dos grandes concorrentes do maior escritório de design do Brasil na época, a PVDI, justamente de Aloísio Magalhães. Forma-se nesse momento uma parceria que durou vinte e oito anos e fez história no design no Brasil, a Verschleisser/Visconti. ” Adquirimos muito conhecimento e confiança nesse período. Nossas bases já estavam estabelecidas, uma carta de clientes diversificada, havíamos ganho os concursos da CEG e da CSN, então nos víamos suficientemente maduros para montarmos nosso negócio sem a necessidade de um apadrinhamento.

Participaram da formação de Leo Visconti, unanimidades do design como Karl Heinz Bergmiller, formando pela Escola de Ulm na Alemanha. Além de Edgard Decurtins, Norman Westwater, Alexandre Wollner, Décio Pignatari entre outras sumidades, já na época. Sendo que Bergmiller acompanhou a formação dessa primeira turma durante os quatro anos da faculdade.

Dentro de seu vasto portfólio destaca na área de programação visual a marca da Companhia Siderúrgica Nacional ( CSN ) onde mais de duas mil peças receberam aplicações do símbolo criado e a CEG, Companhia Estadual de Gás do Rio de Janeiro. No setor de design de produtos gosta de citar o projeto da Mobralteca, como um belo projeto pelo seu caráter social:

“Consistia em cinco furgões, um para cada região do país, que levavam o programa Mobral Cultural para as áreas de comunidade menos favorecidas do Brasil. Quando chegavam nas cidades, o furgão de abria e mostrava os vários módulos, que abrangiam assuntos desde pinacoteca e música até serviços de assistência social como atendimento médico, odontológico e registro de identidade. No caso do Norte foi até feito a Mobralteca Fluvial que percorria a bacia amazônica até as comunidades. Decidimos pelo uso de um barco de casco catamarã pela maior resistência e estabilidade ao se chocar com as diversas toras de madeira ao longo dos rios”.

Falando sobre gigantesco projeto do Metrô de São Paulo através da Marfesa em 1973, lembra que o amigo e um dos responsáveis pelo projeto, o engenheiro Cláudio de Senna Frederico, percebeu a incompatibilidade do sistema de Metrô (talvez o mais moderno do mundo na época) com os carros ferroviários a serem usados. Lutou para provar que os carros a serem utilizados eram de tecnologia ultrapassada e apresentavam diversos problemas de design, principalmente na parte interna. Propôs então uma concorrência entre escritórios do Rio e São Paulo. Ao apresentarem uma proposta compatível com a tecnologia da Marfesa, Verschleisser/ Visconti ganharam mais este concurso. “Os carros ferroviários eram muito antigos, havia rebites aparentes, materiais pesados o que provocava um desgaste muito grande em rodas e trilhos. Isso sem falar da utilização de diversos materiais inflamáveis, um dos nossos principais problemas a serem solucionados na hora que apresentamos a proposta.” O know-how desse projeto favoreceu anos depois a elaboração do Metrô do Rio.

Visconti participou também da implantação e formação de dois outros cursos superiores de design no Rio de Janeiro, primeiro na unidade da Belas Artes na UFRJ, ainda nos tempos em que os cursos da Escola eram dados no centro, em meados de 1970 / 1971, quando o Curso de Artes Industriais, este era a denominação na época, formado pelo Prof. José Francisco Ferreira e mais recentemente, na Faculdade da Cidade, atual UniverCidade onde respectivamente dá aulas na disciplina de projeto gráfico, PVIII que corresponde ao projeto final de graduação.

Sobre as particularidades dos dois curso destaca:

“Diferentemente da ESDI a Belas Artes da UFRJ oferecia uma série de recursos acadêmicos na área de artes. O maior desafio foi acomodar a questão curricular. A filosofia rígida, extremamente alemã da ESDI, não era o ideal para as condições de Brasil. Vejo no curso de design da UFRJ, principalmente por ser um curso de uma instituição governamental, toda uma preocupação com os problemas sociais. Mas sobretudo um curso eclético nos moldes do Royal College de Londres onde a plástica das artes se interage com o fator tecnológico industrial do design. Na UniverCidade fundado em 1980, um curso noturno de características totalmente diferentes de ESDI e UFRJ. Por ser um curso mais novo há um trabalho muito mais experimental e prático, onde recursos de computação gráfica estão muito presentes.”

Visconti lembra que os cursos de design já tiveram diversas outras nomeclaturas como, Artes Industriais, Artes Gráficas, Comunicação Visual, Programação Visual, Desenho Industrial…

“Esses são termos que ainda não traduzem o ideal da palavra em inglês.

O problema é que a associação do que é design hoje está muito diluída, quase banalizada. Dizem que qualquer coisa hoje é fruto de design, somente para agregar um falso valor. Não é bem assim que funciona”.

Em 1995 o escritório Verschleisser/Visconti foi desfeito e os dois profissionais deram continuidade as suas carreiras profissionais e acadêmicas. Fatores que contribuíram para esta dissolução foram a dimunuição significativa de projetos de grande porte e o advento da Informática onde tiveram que aprender do zero novos recursos para apresentação e execução de projetos. “Foi genial essa idéia de refazer antigos projetos no computador. Tivemos que condensar vinte e oito anos em seis meses de trabalho contínuo, mas infelizmente muita coisa se perdeu.”

Visconti brinca com a variedade de projetos nos quais participou: “Só não fiz disco voador porque não me deram o motor”.

Fonte: http://hermanfaulstich.blogspot.com.br/2008_02_01_archive.html

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